Antes da primeira palavra, o som. Um som, cantado por um coletivo humano, tem o poder de evocar uma fundação cósmica. Em meio aos ruídos caóticos do mundo, esse canto gera um princípio ordenador. É um ato de criação. Sob essa frequência sonora invisível — e altamente poderosa — estabelece-se um acordo primordial, que projeta não apenas o fundamento de um cosmos sonoro, mas também a base do próprio universo social. Ele é a coluna vertebral de uma comunidade, o pulso compartilhado que diz: “estamos aqui, juntos”.
Ancorados por essa visão profunda, os povos originários existem na medida em que podem fazer música, cantar e dançar para não deixar o “céu desabar”, como disse Ailton Krenak. Esses povos se comunicam com mundos invisíveis, com seres do céu, gente-bicho, gente-fauna, criando um sentido que resiste às violências externas que os ameaçam constantemente. O canto, o ritmo, a melodia, as palavras sonorizadas tornam-se o tecido vivo dessas comunidades e seus saberes, a respiração comum que afasta o caos. Assim, a música se apresenta, desde sempre, como o mais intenso e visceral modelo utópico das sociedades que insistem em estar presentes na natureza, vivendo-a de forma plena, sem subtraí-la.
Nesta lista, vocês perceberão a predominância dos cantos dos Timbira, grupo formado pelos povos Krahô, Canela-Ramkokamekrá, Apinajé, Krikati, Gavião Pykopjê e Canela-Apanyekrá, habitantes de aldeias no cerrado do Maranhão.
Para os Timbira, a “música é o som que se manifesta pela palavra soprada através da garganta”: o hõcrepöj. Este conceito une canto e saber, revelado pela junção de dois termos: garganta (hõ/jõ cre) e aparecer (pöj), formando o "saber que emerge da garganta". Como registrou a etnomusicóloga Kilza Setti em 2004, há cantigas de pátio; cantigas-convite; cantos da madrugada; cantos da manhã; músicas só das mulheres; outras só dos homens, cantigas de animação, mostrando que cantar é muito mais que produzir uma melodia — é ativar conhecimentos ancestrais, fortalecer laços comunitários e dialogar com o cosmos, mas também se divertir, gerar amjëkin — a alegria.